Recentemente vi um artigo da jornalista Cynara Menezes, no site da revista Caros Amigos, intitulado "A esquerda e o indivíduo". O mote do artigo diz que a esquerda "tem pecado em não olhar mais para o indivíduo, em não mostrar uma atenção especial para com o crescimento individual".

Noto em várias opiniões esquerdistas uma certa "demonização" das pessoas que querem alcançar seus objetivos (financeiros, de escolaridade, entre outros) através de mérito próprio, dependendo o mínimo possível de ajuda estatal. É só mencionar a palavra meritocracia que as discussões se tornam deveras quentes.

Nessas mesmas discussões, noto que o conceito de meritocracia utilizado nessas opiniões diz respeito aos feitos conseguidos não através de mérito individual, e sim atravez de influências externas (o famoso "Q. I.", por exemplo), porém o feitor diz que conseguiu sozinho. Ou seja, estão fazendo carnaval por algo que não se trata de meritocracia no sentido estrito da palavra.

Embora eu seja do espectro político-ideológico mais alinhado à esquerda, eu acredito sim que podemos conseguir as coisas através do esforço próprio, sem depender de "muletas" do Estado. É sempre bom frisar que para se sentir alinhado com uma determinada ideologia, não é necessário seguir 100% a cartilha! Entre o preto e o branco há inúmeros tons de cinza diversas cores!

Tem coisas que são muito difíceis de se conseguir por causa da nossa condição social? Sim, com a mais absoluta certeza. Se eu sou pobre, como vou comprar uma Ferrari? Como vou cursar uma boa faculdade se tenho que trabalhar e não tenho tempo para estudar?

Como alguém de esquerda, penso que o Estado deve fornecer pelo menos o tripé básico para uma pessoa viver bem: saúde, educação e segurança de primeira linha, além de outros serviços públicos, como transporte. Vou utilizar o exemplo de "cursar uma faculdade" para a explicação a seguir:

Com o Estado fornecendo o básico a ponto de as camadas mais abastadas da sociedade cursarem o Ensino Médio em uma escola pública, lado a lado com quem vem das camadas mais pobres, poderemos aplicar o conceito de meritocracia em sua plenitude, ou seja, vai entrar para a facul quem estudar mais, já que tanto o rico quanto o pobre sairão do mesmo ponto de partida.

Essa questão do ponto de partida é que pega nas discussões sobre meritocracia nas rodas de conversa. Hoje uma escola particular é infinitamente melhor que uma pública, e somente as camadas mais ricas tem acesso a elas. O rico sai bem na frente no quesito instrução.

E como o pobre pode vencer essa desvantagem? Uma das alternativas é se esforçando BEM mais para estudar por conta, fora da escola.

Temos um exemplo recente, embora a pessoa em questão ache que "a meritocracia seja uma falácia", se encaixa muito bem: Bruna Sena, mulher pobre e negra, passou em 1º lugar em Medicina na USP de Ribeirão Preto.

Bruna pertence a três grupos bem marginalizados pela sociedade: mulher, pobre e negra. Mesmo com todas as adversidades, passou com louvor no vestibular.

Discordo de você, Bruna, no seguinte:

A meritocracia é uma falácia. Eu consegui porque tive ajuda. Não dá para igualar as pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Eu me esforcei muito, sim, mas não consegui só por causa disso, eu tive muito apoio. E é isso que a gente tem que dá para quem não tem oportunidade. A gente perde muitos gênios por aí, inclusive nas favelas porque não podem estudar. E eu fiquei com muito medo de que minha postagem servisse de argumento para a meritocracia. E eu vi comentários que se baseavam nisso. Mas eu sabia que ia acontecer. Eu quero frisar bem que a questão importante é a oportunidade. Eu consegui porque tive oportunidade. Eu tenho visto minha história como apoio à meritocracia e fico muito triste com isso.

Pois é, pode ficar triste comigo, pois estou utilizando sua história para me basear no meu apoio à meritocracia. E é exatamente isso, pois você estava em absurda desvantagem em relação a alguém mais rico e mesmo assim superou.

Sim, Bruna. você não conseguiu sozinha. Contou com o apoio da sua família, do pessoal do cursinho. Sozinho em absoluto não somos nada. Eu mesmo, não conseguiria absolutamente sozinho viajar para o Japão, tive muito apoio. Porém foi a determinação de passar no vestibular, e a minha de ir viajar, que fez com que realizássemos nossos sonhos. PS: Determinação é uma palavra muito utilizada na minha religião, a Tenrikyo (determinação espiritual, mais especificamente).

Nessa questão, não foram utilizados artifícios como cotas ou influências (o Quem Indica, ou o nome dos pais) para entrar na faculdade. Foi o esforço que fez com que a Bruna realizasse seu sonho.

Cabe ao pessoal de esquerda não demonizar este discurso do mérito próprio, muito pelo contrário: deve enaltecer, incentivar as pessoas de lutarem por aquilo que desejam, mesmo com todas as adversidades. Se o Estado não fornecer o ponto de partida adequado, chegar nele sem depender do mesmo.

Pensar no coletivo sim, deveria ser sempre a nossa função. Porém, conforme Cynara finaliza seu artigo, "não podemos abrir mão da parcela da sociedade que almeja o crescimento individual. Melhor: não existe razão plausível para estarmos distantes dela. Não há nada mais à esquerda do que alguém sair do nada e ascender socialmente. São trabalhadores que merecem todo o respeito. Temos que descobrir como conscientizar estas pessoas sobre o pouco que a direita tem de fato a oferecer a elas. Mas, para isso, é necessário que nós também sejamos capazes de lhes oferecer algo."

PS 2: lendo a reportagem da Bruna, ela é militante feminista, e normalmente as militâncias possuem um discurso padrão. E a militância da qual faz parte, demoniza o discurso de meritocracia.