Há muito tempo acompanho blogs de tecnologia, e um dos meus favoritos é o Meiobit. Lá os caras não ficam presos em um jornalismo "pasteurizado", há sempre uma pitada de humor, muitas vezes politicamente incorreto, e isso é bom.

Um dos autores, Carlos Cardoso (que também escreve no Contraditorium), me inspira em muitas coisas que vocês já notaram que eu faço nas redes sociais: utilizar o adjetivo "edificante" para tratar-se de mulheres atraentes, usar o "LEIÃO" para chamar a atenção para as minhas postagens, a utilizar o sufixo *tard para fanboys de marcas, empresas, coisa e tal; ele tem como musa a atriz Luciana Vendramini, mas eu tenho como minha musa a DJ Eli Iwasa...

Bem, sempre acompanho suas postagens nas redes sociais e posts nos blogs, o cara é inteligente e escreve muito bem, eu curto pacas seus textos, mas quando o assunto é fazer ciência (principalmente aeroespacial) em terras tupiniquins, há duas "cismas" dele que na minha opinião (e de outras pessoas também) são infundadas.

É fato que o nosso (des)governo (e isso é independente de partidos) não liga muito para ciência, vide as trapalhadas que se sucederam na nossa vaga para a Estação Espacial Internacional (ISS), a participação no E-ELT (European Extremely Large Telescope), entre outras. As críticas nesse aspecto são fortes, e nisso eu concordo.

Se prestarem atenção, em (quase) toda postagem em que ele trata o assunto vem sempre com uma referência que pode ser entendida como "em vez de sermos referência mundial em sandálias de pneu, por que não investimos em ciência?".

Nesse post é onde eu vi a primeira referência ao assunto, onde Carlos conta sobre a ISMART e o projeto NAVE.

Pergunto: o que o órgão excretor tem a ver com as calças?

Quem busca ser "referência mundial em sandálias de pneu" é a empresa GOOC, que fabrica tais sandálias. E em que país esta empresa está localizada? No Brasil, certo? Então, se a GOOC, localizada no Brasil, se torna referência mundial em sandálias de pneu, logo o país também se torna referência no produto.

Agora reformulando a minha pergunta: o que a GOOC tem a ver com o investimento do governo federal em ciência? Entenderam onde eu quero chegar?

Tem uma postagem no MeioBit, onde um comentarista foi direto ao ponto, peço-lhe licença para transcrever o comentário:

essa de sandalias de pneus é zica injustificada cardoso.
conto a historia: um belo dia ele passouu no aeroporto e viu um anuncio de sandalias de pneus. no anuncia dizia "queremos fazer do brasil referencia em sandalias de pneus".

ele se revoltou com aquilo! como o brasil não era referencia em satelites espaciais mas um empresário queria ser referencia em sandalias de pneus! assim não pode assim não dá! ou somos referencia em satelites espaciais e foguetes intergaláticos ou não seremos em nada.

tadinho do empresário que é dono da fabrica de sandalias. o pobre nem é brasileiro! é vietnamita. chegou no brasil com uma mão na frente e outra atrás e contruiu o sonho norte americano em terras tupiniquins! montou uma empresa de sucesso, recicla 10 milhoes pneus, vende 30 milhoes de pares de sandalias, monta uma rede de distribuição com capilaridade em todos os estados do brasil e em mais 25 países. consegue atraves do marketing e trabalho duro montar uma marca solida... lucra dezenas de milhares de dolares anuais.

seria um exemplo a ser seguido em qualquer lugar do mundo. uma combinação de trabalho duro, genialidade com resultado no sucesso profissional. mas não é bom o suficiente para não virar piada perante cardoso... tudo por que na estrategia - bem sucedida diga-se de passagem - de marketing dele ele falou que queria fazer o brasil virar referencia em sandalias de pneus.

ele disse que o brasil não deveria investir em ciencia? não!
ele pega dinheiro do governo? não!

Mesmo assim virou piada em um blog de tecnologia e ciencia. algo completamente injustificavel.

Pois é, uma meta de uma empresa PRIVADA sendo entendido como se fosse o governo que estivesse dizendo aquilo!

Criticar o governo pela falta de investimento em ciência e educação, OK, correto, estamos com um défict muito grande em relação a até outras nações do BRICs, como a Índia, que já lançou sonda à Marte. Agora, ficar fazendo chacota de um empresário cujo negócio NADA tem a ver com exploração espacial e o escambau e muito menos é patrocinado por qualquer esfera governamental, por causa de sua estratégia de marketing, já perdeu a graça.

E o datilógrafo, onde entra nessa história?

Se vocês abriram a postagem que linkei acima, a primeira imagem é de um cara com uma máquina de escrever. Essa imagem é uma alusão a Josival Lúcio de Sousa, atualmente empregado no TRE do Distrito Federal, anteriormente lotado como datilógrafo na... Agência Espacial Brasileira. Note que o assunto do datilógrafo rendeu vários comentários.

Uma digressão: como se trata de funcionário público, os dados estão acessíveis neste link, do Portal de Transparência.

A piada fica por conta da imagem de um datilógrafo empregado em uma agência espacial representar o sucateamento da mesma. Mais uma vez, quem deve ser o alvo das críticas é o governo federal. Essa chacota com o tal do Josival também já perdeu a graça, assim como a chacota com a GOOC.

Que eu ainda esteja vivo para presenciar um avanço grande em ciência no Brasil, mas com o governo e congresso que temos no momento, só em sonho mesmo :(.