Vivendo o meu pior pesadelo
Leonel Fraga de Oliveira 17/04/2011 21:49

Caro leitor do NM Light,

Esta é a transcrição da palestra que fiz hoje (17/04/2011) na Igreja Tenrikyo de São Paulo Shinyu, logo após o término do Serviço Sagrado Mensal.

Ela narra com um pouco mais de detalhes a imensa dor da perda da minha mãe. Ela contém palavras um pouco fortes.

Bem, a luta continua, e segue a palestra para leitura:


Queria falar hoje sobre alegrias, realização de sonhos. Mas, com o grande nó que ocorreu em minha família no dia 27 do mês passado (Março / 2011) com o retornamento de minha mãe, infelizmente isto não será possível.

Como costumo dizer, estou vivendo o meu pior pesadelo. Sim, pesadelo.

Cada vez que sonhava com alguém avisando que minha mãe tinha retornado, eu acordava na hora, com medo. Aí eu respirava um pouco e a tensão passava. E era assim, a pessoa, geralmente o meu pai, falando seco: “a mãe morreu”. Era ele falar isso e eu acordava de imediato. Esses sonhos aconteciam faz um bom tempo já, sempre inesperado.

Já no início de março deste ano eu estava com a impressão de que algo grande iria acontecer. Só não sabia o que. Minha mãe já vinha com a saúde um pouco debilitada, e quando uma vez vi as pernas dela inchadas, tomei um susto. “O que que é isso?”.

Embora nós insistíssemos para ela ir ao médico fazer tratamento, ela não ia. Isso porque ela trabalhou mais de vinte anos em hospital, então com certeza ela já deveria saber o que tinha.

E continuei muito assustado. Assustado mesmo.

O tempo foi passando, e cada vez mais ela sentia dificuldades de fazer as coisas. E nesse passar dos dias chegamos ao dia vinte e seis de março, um sábado.

Logo de manhã levei-a para fazer algumas compras em São Miguel. Ela teve uma dificuldade enorme para entrar no carro, e confesso que durante o percurso eu estava muito nervoso, com muito medo do que iria acontecer se continuasse desse jeito.

Chegamos em casa, eu fui ao meu quarto para trabalhar, fazer as minhas mixagens, até um pouco aliviado porque ela disse que iria ir ao médico na segunda-feira seguinte, e eu e meu pai estávamos pesquisando na internet sobre disfunções hormonais, especialmente hipotiroedismo, que causa os sintomas que estávamos vendo.

Nisso ela estava fazendo docinhos para uma encomenda.

Beleza, então fomos dormir, afinal amanhã seria outro dia.

Mas não imaginei que a madrugada do dia 26 para o dia 27 seria longa. Quando chegou às quatro e meia da manhã, meu pai subiu até o meu quarto e falou que “a mãe não está passando bem, vomitando sangue” e tal. Mal ele terminou de falar essa frase eu imediatamente abri o olho, corri para vestir uma bermuda e descer ao quarto de meus pais. Não tive nem tempo para despreguiçar.

Já estávamos desesperados. Eu, meu pai, meu irmão e a namorada dele, que estava em casa na ocasião. Levou-se um tempo até conseguirmos acomodá-la no carro e levá-la para o hospital Santa Marcelina do Itaim Paulista. Ela estava vomitando muito sangue, e ela também estava lúcida. Até quis preparar uma bolsa e tomar banho antes de ir ao hospital.

Fomos ao hospital meu pai e ela em um carro e eu os seguia no meu.

Chegando lá, demos entrada na emergência e ficamos no aguardo. De tempos em tempos olhávamos (eu e meu pai) pela janela da sala de emergência o que estava sendo feito com ela. Era colocação de soro, sangue, colocar na maca e acondicioná-la nos aparelhos…

Teve uma hora que estávamos na sala de espera e não conseguia mais segurar as lágrimas. Isso era em torno de oito horas da manhã, acho.

Quando o médico veio falar conosco, cerca de três horas da tarde, falou que o quadro era grave, que tinha o risco de morte e falou também detalhes da doença: cirrose hepática.

Nossas esperanças não eram boas. Estávamos na torcida, mas já estávamos preparados para o pior.

Eis que fui para casa tentar descansar um pouco, meu pai ficou lá no hospital e minha tia Dalva também estava por lá.

Eis que o relógio bate às 06h20min da tarde, meu pai liga em meu celular e me dá a notícia: “infelizmente a mãe já era”, disse ele, mais ou menos com essas palavras.

Contei a notícia para meu irmão, e neste momento meu mundo desabou. Perdi a minha mãe, perdi a mulher que eu mais amava, perdi uma amiga, uma confidente, o meu norte, a minha estrela guia.

Chorei como nunca havia chorado na vida. Minha raiva era tão grande, que desci para a lavanderia, peguei uma garrafa de cerveja e atirei com toda a minha força contra a parede, naquele canto de terra que tem em frente ao quarto dos meus pais. Proclamei as seguintes palavras: “você matou a minha mãe”, referindo-se à bebida, que não é segredo nenhum que ela gostava de tomar a cervejinha dela, e é de conhecimento também que bebida alcoólica faz mal, principalmente ao fígado.

Meu irmão veio me falar que não foi a bebida, e sim a insistência dela ao não fazer o tratamento. Sim, eu SEI disso, porém eu queria extravasar, por pra fora aquele sentimento de raiva.

Se antes eu detestava bebida alcoólica pelos efeitos psíquicos que o álcool causa, agora tenho um motivo real para não beber. Isto pode me matar o mais cedo possível. Se for para morrer de cirrose, que seja por uma hepatite transmitida pelo ar, e não por beber demais. Mas confesso que já tentei aprender a beber, por conta de uma ex que também gostava de cerveja. Nunca fiquei de porre, mas não conseguia beber de jeito nenhum.

Daí foi a maior correria para acertar as papeladas do sepultamento. E nisto quero agradecer ao kaityo-sam, à minha prima Valéria, a minha prima Francisca e a namorada do meu irmão por me acompanharem nas viagens que fiz para tratar da parte burocrática.

Bem, também quero agradecer a todos os meus amigos pelo apoio que estão me dando.

E cheguei a fazer o seguinte questionamento, Eu e Deus: Será que algum dia poderei realizar nesta vida o meu maior sonho? Pois o meu maior pesadelo já se tornou realidade.

Dizemos que dos nós saem os brotos. Estes poderão demorar para surgir. E mais nós vêm se realizando: minha cachorrinha pegou cinomose e tivemos que fazer a eutanásia para que não sofresse tanto. Meu cachorro Ringo também está apresentando sintomas desta doença, que infelizmente não tem cura.

Os animais sentem sim o que está acontecendo em casa. Principalmente a Nina, que sofreu mais a perda da minha mãe. Creio que além da cinomose, ela estava deprimida. Ela era muito apegada a minha mãe, assim como eu era.

Saio para trabalhar, e tem horas que no caminho sinto um vazio tão grande que não sei o que devo fazer. Já passaram-se três semanas e a ficha teima a não cair. Questiono: Deus, o que mais falta acontecer com a minha família?

Me amparo em Deus, em minha família e nos meus amigos para não desistir. Está sendo muito difícil viver sem minha mãe. Cada vez que penso nos momentos, nas comidinhas gostosas, eu seguro as lágrimas.

Literalmente agora terei que “me virar nos 30”, que completarei agora em maio. Recebi a missão de cuidar da minha família: do meu pai e do meu irmão. Deus está me dando uma oportunidade de crescer, só que crescer na marra, sem estar debaixo das asas da minha mãe, fisicamente.

Ela e Oyassama estarão trabalhando para que eu possa realizar meu grande sonho, e mais cedo ou mais tarde eu hei de consegui-lo. Terei que fazer um esforço grande devido à minha personalidade, mas pensando bem, já que eu tive a maior frustração da minha vida, outro tipo de frustração não faria o mesmo efeito do que em outros tempos. Isso até me dá mais coragem para fazer o que eu devo fazer. É questão de tentativa e erro. Assim como aprendi a programar, a fazer mixagens, posso aprender a correr atrás deste objetivo também.

Confio em Deus. Há momentos em que tenho vontade de fazer nada, mas Ele me guia para que eu não desista. Afinal, tenho que cumprir a minha missão, de amparar a minha família entre outros deveres aqui neste mundo.

Espero poder reencontrar a minha mãe. Pode ser daqui a um longo tempo, quando eu retornar ao seio de Deus, ou quando talvez eu nem perceba, no momento que a alma dela tomar um novo corpo emprestado por Deus.


Um abraço!

Leonel Fraga de Oliveira Leonel Fraga de Oliveira é formado em Processamento de Dados na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC-SP - 2002) e anteriormente em Técnico em Eletrônica, pela ETE Professor Aprígio Gonzaga (lá em 1999).
Atualmente trabalha como Analista de Sistemas na Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul - SP
Tem como hobbies DJing (também trabalha como DJ freelancer) e ciclismo, além da manutenção dos sites NeoMatrix Light e NeoMatrix Tech.
Gosta de música eletrônica, tecnologia, cinema (super fã de Jornada nas Estrelas), gastronomia e outras coisas mais.


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